Sim,
sou filha de negro, descendente de Zumbi, moro na periferia e estou desempregada.
Encontro-me nas esquinas das grandes capitais sem chance de viver e tentando
sobreviver em meio à selva que me encontro.
Poderia
ser só mais uma em meio à multidão se não fosse pelos anos de abandono e de
sofrimento que me encontro, pergunto-me porque me libertaste meu senhor se não
me deu condições de viver dignamente? Se me falta educação, saúde e moradia
adequada? Se me perseguem por causa da minha cor?
Não,
Não quero suas esmolas muitos menos suas migalhas. Sou negra, sou raça, sou
forte, sou humana e tenho sonhos. Sonho de algum dia poder sair na rua sem ser
olhada como marginal, entrar nos locais e não ser humilhado pela minha cor,
pelo que visto ou pelo que aparento. Sonho com um dia que meu filho não sofrerá
o mesmo que sofri em todos esses anos de liberdade altamente excludente.
Meus
gritos de dores e tambores ecoam pela cidade, meu sangue jorra pelas ruas desta
capital e quem olha por mim? Pelos meus anseios? Pelos meus desejos? Quem me
defenderá das grandes garras do meu senhor tão opressor e violento?
